É exatamente hoje que realmente começa o ano. Na terça-feira seguinte do final de semana do carnaval. Justamente hoje porque é o dia em que aquele zumbido no ouvido, graças aos seus maravilhosos sobrinhos e suas quase armas de fogo, já paassou. Que sua unha roxa do dedão direito do pé já não dói mais, depois de tentar carregar a décima cama para o único quarto em que a família se espreme na mais terrível e calorenta cidade do país. Hoje também que a quela luxação passou quando você pulava a terceira ondinha e caiu numa pedrinha escondida como uma mina terrestre na praia. É hoje que aquela sua promessa de ir no pilates todos os dias não foi muito mais longe que a matrícula de seis meses – até porque se fosse de um ano, a gente ia se enganar muito.
O ponto que eu queria chegar é esse. É hoje que a gente aterrisa no mundo real. Hoje que a gente já esquece dos votos de ano novo. Hoje que nós deixamos quem queríamos ser na virada, pra voltar à ser aquela pessoa sem-graça do ano passado. Vamos tentar, pelo menos por mais duas semanas, ser aquelas pessoas do ano novo. Até porque – se fosse para mais que duas semanas, a gente ia se enganar muito.
De resto, como eu não sou lá muito fã desse tipo de coisa, desejo à todos um feliz 2010. Que seja repleto de alegria e essas coisas que deixam as nossas fotos e histórias cada vez melhores.
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Quem anda aqui na paulista sabe que aqui se encontra o que há de mais moderno e de vanguarda no mundo da mendicância. É o pináculo da mendigação. Aqui, os mendigos tem álibis, estórias e casos únicos e excepcionalmente bem trabalhados. Como o suposto professor com inglês impecável, o Nordestino perdido na entrevista de emprego, a doida da bicicleta, o dueto – que sinceramente não dá pra entender ou escutar – de violino e guitarra ou o truque do ADORO TEATRO são exemplos disso. Esses dias eu vi um cara tocando um triângulo. Agora me explica, QUAL A DIFICULDADE de tocar um triângulo? É por conta de caras como esse que toda uma categoria que se esforça para ser reconhecida vai embora.
O mais difcíl para escrever esse artigo foi elaborar o título. E justamente nesse trabalho foi que o eu percebi que aquilo que eu havia escrito fazia sentido. Resumidamente, a adversidade e a meta são – de forma paradoxal – norteadores e inimigos do processo criativo. Como reis magos que levam junto dos presentes a ordem de crucificação para trinta e três anos depois.
Percebe-se que o processo criativo é mais intenso, ou ao menos maior em volume, quão maior é o desconforto do criador. Seja este um branco, um problema crônico patológico ou uma ressaca. Parece que, quão maior são as adversidades impostas, maior também é o nosso instinto criativo. Instinto não porque o processo é natural, mas esse boost vem de maneira quasi-biológica. Em frente à grandes dilemas, problemas e perturbações é que se realizaram os maiores feitos da humanidade. Seja no campo artístico, científico ou empresarial, aquele que quebra paradigmas é sempre aquele que não fica à vontate com o cenário, que percebe de maneira diferente aquilo que está à mostra para todos.
Outro ponto que parece estimular os criativos é a presença de um objetivo, de uma meta. Se esta é conhecida ou não por ele, é outra história. É ela quem compele o criador, que o move e que o força a sair do status-quo. Às vezes, na busca da meta o criador se encontra com uma solução diferente daquela que ele buscava. Paciência, e re-começa o ciclo, só que na primeira instância.
O ponto e vírgula
mais que separa;
aproxima.
Pela primeira vez…
Publicado agosto 25, 2009 r Causos Deixar um ComentárioTags:Causos, exercício, nóia
A primeira vez de tudo é complicado. Lembro da primeira vez que eu cheguei numa mulher. Eu era novo – quero dizer, bem mais novo – e, como vocês vão ver, eu sou timido pra caralho. Capaz de se um ônibus estiver pra me atropelar a 80 por hora, eu vo emitir um grunhido de leve pra não perturbar os passageiros. Até deitar e esvaziar o pulmão pra fazer o ônibus passar mais fácil por cima de mim. Pois é.
Então eu fui chegar na mulher. Mas eu não tinha coragem nem pra olhar pro cabelo dela, imagina só conversar. Eis que surge um amigo meu com uma brilhante idéia. “Ei ei Rafael, fica bebado cara! Ce vai ver, muito mais tranquilo!”. E como sempre, as melhores idéias são as que vem primeiro. Tipo quando o cara vai consertar o chuveiro elétrico ele vai descalço e com uma faca de cozinha cortar os cabos de energia. Veio primeiro, é a que vai.
Então eu fui beber. Depois de uma primeira ice eu já conseguia até esboçar um sorrisinho pra ela. Ainda não era o suficiente pra chegar perto, mas já era um começo. Algumas horas depois, eu me julguei pronto. Já fui até pensando no que ia fazer, como ia ser, o que ia rolar e tudo mais. Coisas de gente inexperiente, claro. Pensei assim, vo chegar perto dela, lançar uma piadinha, ela vai rir, vai lançar um comentário engraçadinho, eu finjo que rio, começamos a conversar, eu pergunto o nome dela tiro a franja do rosto dela, passo por tras da orelha devagar, e dou um beijo nela. Até pensei que ia ser no por do sol, com pombas brancas voando e Let’s get it on tocando baixinho.
No entanto, o que aconteceu foi uma situação mais ou menos parecida. Sabe como é, vocês vão ver eu tenho um problema sério de dicção já quando sóbrio. Não chega a ser um cebolinha, mas enche a porra do saco. E quando bêbado, é parecido com aqueles tiozões de 60 anos na esteira da academia pela primeira vez. O cara mete 15 km por hora. No começo até vai, três passsadas depois o velho tá segurando o corrimão enquanto a esteira lixa as pernas dele. Foi QUASE isso. Eu tinha um mundo de palavras na cabeça. Além disso, tem o efeito zica que acontece sempre que você vai fazer algo REALMENTE importante. Na sua entrevista de emprego, seu carro quebra tem greve do metrô e um enxame de pombas com diarréia explosiva de passagem pelo hemisfério sul. Coisas assim, super comuns.
Com ela, o plano era de lançar uma piadinha boa, elogiar ela, falar o quão linda era ela e partir pro franja-attack. O que saiu foi um misto de arroto com um oi. E eu havia comido salada de alho com calabreza. Quando eu vi que não deu muito certo, tive outra idéia genial, pular o bla bla bla e partir pro pegada da franja. ” Mulher gosta de homem com atitude” dizem umas enganadoras por aí. Só que eu não estava acostumado ainda com aquele “Yeaah…” que o álcool dá. Aquela sensação sabe? De que um metro e quinze centímetros são quase a mesma coisa? Foi aí que eu me liguei que eu tava numa micareta. Sabe, grama, lama e chuva. Quando eu me aproximava dela, eu escorreguei assim, bem de leve.
Com isso, a mão que tinha que ir no lado do rosto dela, foi bem no olho. E eu, ainda meio desequilibrado, cambaleei e puxei ela junto. Eu acho que eu rolei uns 10 metros com ela na tentativa de parar. Como espólio de guerra, ela leva uma retina descolada e eu um pino no braço.
Espero que com blog a coisa dê mais certo.
